A
“syrah” é uma das principais castas francesas. Entre as tintas,
é a quarta em importância. Atrás apenas da “cabernet sauvignon”,
da “merlot” (ambas de Bordeaux), e da “pinot noir” (da
Bourgogne).
Mas embora presente e muito plantada ao redor do mundo em países como Austrália, Nova Zelândia, América (Califórnia), África do Sul, Argentina, Chile e até Portugal, sofre de uma “crise de identidade” forte. Suas origens envoltas em lendas são provavelmente a razão disso.
O
mito mais famoso é sem dúvida, o que diz que ela é originária do
oriente, mais precisamente, de uma cidade de nome Shiraz, localizada
na antiga Pérsia, o atual Irã. Por muito tempo se acreditou nisso,
até que o avanço da tecnologia permitiu de forma definitiva que se
mapeasse o DNA das plantas. Com isso provou-se que a “syrah” é
mesmo originária do norte do Rhône (Ródano) na França, onde é
responsável por vinhos que em verdade são varietais dessa uva, mas
que ao invés de mostrar isso no rótulo, usam a antiga denominação
“Hermitage”. Também é a principal uva da composição de
grandes legendas como os vinhos “Châteauneuf-du-Pape” e “Cotês
du Rhône”.
Bem, ela não foi trazida do Oriente-Médio até a Europa, uma vez que hoje sabemos ser descendente direta de duas uvas francesas pouco conhecidas de nomes “dureza” e “mondeuse blanche”. Isso coloca um fim nas especulações que alegam que o vinho que Jesus Cristo teria tomado na “Última Ceia”, seria feito da uva “syrah” (essa é outra lenda corrente).

Há também versões que indicam que ela teria chegado até a França vinda de Siracusa, na Sicília, hoje parte da Itália, pois em alguns lugares ela é conhecida como “syrac”, mas nenhuma dessas histórias é embasada por documentos e nem haveria necessidade do exame de DNA para colocá-las por terra.
Sem dúvida, o fato dos australianos, chamarem-na de “shiraz”, mudando a grafia do original francês para escrever exatamente como se soletra o nome da antiga cidade iraniana, não ajuda em nada e só confunde. Mas agora você leitor, já sabe que Syrah e Shiraz são dois nomes para a mesma uva francesa.
Durante minhas andanças e explorações pelos vinhedos argentinos em 2005/2006, soube que na província de San Juan se faz um excelente Syrah, talvez o melhor da Argentina, na jovem vinícola Callia Alta. Também pude conversar com o luso Luís Almeida, o grande enólogo da Finca Flichman, gigante vinícola de Mendoza, mas que pertence à portuguesa Sogrape, e ouvir dele que os vinhos preferidos da casa são os “syrah”. Portanto, fica aqui minha dica àqueles leitores que queiram procurar por diferentes vinhos feitos com essa uva, ela é bem tratada por essas duas vinícolas, que acabei de citar.
Mas fora da França, os mais renomados “shiraz” são os australianos. Uma das informações que não é muito divulgada em “terras brasilis” é que a praga “philoxera”, que quase dizimou os vinhedos mundiais em fins do século XIX, não atingiu a região do Barossa Valley, onde eles têm orgulho de ter parreirais muito antigos de “shiraz” sem a necessidade de enxertos como em quase todo o resto do mundo, exceção feita ao Chile.

Por isso, quando ouvirem alguém dizer, que só no país andino existem vinhedos intocados pela philoxera, como é comum, pensem: “Mais um mito do vinho, na Austrália também há!” Saúde!

